Eu, Joseilda de Oliveira e Silva Cristaldo, professora de Língua Portuguesa, formadora do GESTAR II em Miranda-MS, traço nessas linhas a minha memória de leitura desde a minha alfabetização até os dias de hoje, como profissional formadora, tanto com os professores cursistas ou com meus alunos do ensino básico.
Entrei na escola com seis anos de idade, na cidade de Cajamar-SP, não me recordo muito, o que lembro das leituras que fazia era na minha cartilha Caminho Suave, ora na escola ou em casa, pois meus pais me auxiliavam na minha alfabetização. Durante meus quatro anos no primário (1981-1984) não lia livros, os poucos textos que liam era os textos dos livros de Língua Portuguesa, da coleção Brincando com as palavras, de Joanita de Sousa. Um texto que gostava muito era do Mundo de Dinho, um menino que gostava muito de desenhar peixes, e do poema Andorinha no fio.
Quando fui para o ginásio, a professora Maria Rita Basili Soares me apresentou aos livros de histórias, e o primeiro livro que li foi Confissões de um vira-lata, de Orígenes Lessa, eu ficava muito triste quando lia a história, pois sentia muita dó do cachorrinho. Após esse livro tomei gosto pela leitura e lia sem que as professoras solicitassem. Na escola onde eu estudava não possuía biblioteca, mas tinha um armário na secretaria muito grande onde ficavam guardados todos os livros literários da escola. Lá eu passava grande parte do tempo, escolhendo um livro para ler. Às vezes o colorido da capa e o título me impulsionava a leitura, mas quando iniciava não me identificava. No outro dia ia lá e escolhia outro. O engraçado foi quando iniciei minha vida profissional, que por sinal foi na mesma escola, e nos poucos livros que ainda restavam lá muitos tinha o registro de meu nome na ficha de leitura.
Nesta época eu ainda podia exercer a leitura por fruição. Como era gostoso. Eu me transportava para as histórias. Adorava as aulas de redação porque sempre eu tinha ideias para os meus textos. Apesar de haver ficado muitos anos pensando que sabia “escrever” eu me “orgulhava” em ter assuntos para os textos.
Um fato que me recordo até hoje, foi em uma aula em que fazíamos à caligrafia. Todas as semanas a professora passava para nós. Eu sempre era a última a terminar. Todos saiam para o recreio, e sempre estava lá eu terminando. Neste dia tive uma grande ideia: “Farei tudo rapidinho e serei a primeira a sair”. Nossa isso era animador. Quando chegou a hora de fazer a caligrafia a professora pegou a sua régua de madeira, traçou as linhas na lousa, escreveu a frase para copiarmos e comecei a colocar em prática meu plano, que achava ser infalível. “Ufa consegui ser a primeira”. Levantei-me e levei o caderno à professora. Para a minha surpresa ao voltar ao meu lugar para guardar minhas coisas a professora veio até mim rasgou a folha e disse “Onde você pensa que vai mocinha? Isso aqui está horrível! Enquanto você não terminar não sai”. Mas como o meu plano era infalível. O que deu errado. Não tinha outro jeito, tive que refazer. Essa atitude da professora me fez aprender que o que importa não é a rapidez com que fazemos as tarefas, mas sim como a fazemos.
Ao adentrar no Ensino Médio duas pessoas merecem a minha admiração e respeito, são as professoras Gessy Pauleto Spanhol e Maria Ivone da Silva Gonçalves, através delas tomei gosto pela Língua Portuguesa e sempre me espelhei em sua postura profissional, sem falar que as duas me ajudaram muito no início de minha profissionalização. Tudo que aprendi e sei hoje devo muito aos seus ensinamentos, apesar de hoje eu ter um outro pensamento e conduta, o início de tudo está nelas.
A leitura marcante no Ensino Médio foi O Cortiço, de Aluisio Azevedo. As aventuras de João Romão para construir seu patrimônio chamam muita a atenção e apesar do romance ter muitos anos de publicação podemos facilmente identificar a conduta do personagem a pessoas de nossa sociedade hoje.
O ingresso no nível superior foi muito difícil. A adaptação foi lenta e dolorida. Lá eu percebi que tudo que havia aprendido não era suficiente. Não sabia trilhar os caminhos da aprendizagem sozinha. Não sabia proceder à leitura conforme solicitado. Nessa fase acabou a leitura por fruição. Deu-se início aqui a leitura por obrigação. Essa nova prática de leitor não conhecia. O encantamento dos livros foram se desmoronando para mim. O sentimento de incapaz dominava o meu ser. Tanto que o meu pensamento durante a graduação era de simplesmente completar o ensino superior, não tinha a vontade de ensinar. Os professores eram ríspidos, insensíveis. Às vezes me sentia perdida. Quando não entendia, ou não sabia alguma coisa, os professores não paravam para nos ensinar. Diziam somente que deveríamos ter aprendido e que a função deles não era essa, voltar ao tempo. Isso me chocava muito.
A primeira vez que fiz uma leitura para realizar uma resenha foi muito complicado, pois não sabia como ler e anotar as informações necessárias, aliás, não sabia nem o que era a resenha. Tive que aprender sozinha.
Com tudo o que me aconteceu durante a graduação não consegui marcar nenhuma leitura. Todas eram por obrigação de provas, seminários ou trabalhos. Nenhuma foi por prazer.
Hoje tento me readaptar a leitura por fruição. A passagem pela graduação foi dolorosa em relação a leituras. Tento passar aos meus alunos uma outra maneira de ver a leitura, sei que às vezes é difícil, pois pelas vivências que eles já possuem leem só por obrigação também.
Pena que profissionais despreparados, ou profissionais que não sabiam se deleitar com a leitura, conseguiram apagar de minha vida o gosto da leitura. Às vezes tenho vontade de ler pelo prazer de viajar com a leitura. Mas o peso da obrigação sempre vem à tona. Pensamentos de como utilizar a leitura que fiz e/ou faço com os alunos fluem sempre.
Ah como tenho saudade dos meus tempos do ginásio...
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